domingo, 10 de janeiro de 2010

Sobre a teoria do desejo

João que beijava Carolina e encantava-se com Sandra, amava Maria, que caia de paixões por Otávio. Otávio, separado há anos de Lúcia, vivia só e descrente do amor. Maria não era feliz com João, pois só pensava em Otávio.

Otávio, amargurado pelo desamor de Lúcia, não percebia o amor de Maria. Lúcia morava na capital porque passara num concurso público e tinha um namorado. E João?

João suspirava pelos cantos e por todas as moças, mas com os olhos vidrados em Maria. Um dia João acordou e perguntou-se "por que amar quem não me ama? Por que desejar o que não se pode ter?" Em uma conversa de bar jogou a pergunta para Otávio. Este coçou a cabeça e olhou muito sério para o amigo: "são coisas da vida. E algumas destas coisas não têm explicação".

 Conclusão 1: um quase não pensar sobre o que acontece pode ser a melhor opção. João voltou para casa pouco convencido e arremessou a mesma pergunta para Maria. Ela, um tanto nervosa, com receio de ser descoberta, gaguejou "não sei". Acrescentou ela "talvez seja a história do fruto proibido, o fruto mais gostoso".

Conclusão 2: a revelação do inesperado, o prazer no que é proibido é uma realidade. Por causa de trabalho, João foi à capital e encontrou Lúcia numa repartição pública. Conversaram rapidamente sobre "como está", "e o trabalho", "a família vai bem". Na hora de se despedirem João não aguentou e tascou a ladainha do desejo.

Lúcia não se assustou, apesar dos olhos arregalados, e comentou "porque somos uns eternos insatisfeitos. Nunca estamos satisfeitos com o que temos. Precisamos mais e mais".

Conclusão 3: o ser humano é ambicioso. Quer sempre mais. Nenhuma palavra ou idéia organizava os pensamentos de João. Maria insistia na tentativa de chamar a atenção de Otávio. Lúcia vivia com o namorado e encontrava-se, toda quinta-feira, com um colega de trabalho. Otávio era visto à noite nos bares da cidade. Sempre muito quieto. E João? Num longo inverno, o teimoso João aventurou-se a escrever sobre a teoria do desejo.

No início achou que a lógica seria seu guia. Acomodou-se em um ambiente ordeiro, comprou canetas, aparelhou o computador. Nada produzia e passou a provar do desânimo. Até que sentiu uma fisgada atrás da orelha. O caos gritava por seu nome. Agora ele escreve um livro sobre o assunto. Alguns capítulos são rápidos. Outros lentos, tanto que se arrastam. Tudo depende da musa que inspira seu momento. Parece que a atual se chama Valquíria e é tatuadora. Dizem que foi idéia dela tatuar um ponto de interrogação bem grande na nuca dele.

P.S: a pensar, o quê inspira o seu momento?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Rinotilexomania

Se minha tarde for como a tal manhã de hoje, juro que me rasgo inteiro. Talvez começando pela boca. Comer de cabeça cheia será difícil. O nariz me coça e coçar não adianta enquanto eu não digerir a manhã. Céu claro, trânsito caótico, reclamações sem motivo, ligações mal interpretadas e o meu nariz reclama. Eu coço o meu nariz. Por dentro e por fora. Violentamente sem resquício algum de suavidade. Às vezes até sangra. Me assusto, trato com remédio sério então. Olho o vermelho chamando minha atenção. Procuro lenço. De papel ou de pano. Mas não encontro nada. Passo os dedos pela cartilagem e limpo nas calças. Vou curando cada ferida momento a momento e curado o nariz volto a coçar.

Ao entrar no restaurante de todos os dias foi desta maneira que começou. Tempos atrás importunei o nariz de leve. Mal toquei. Acho que foi bem assim. Um ato inconsciente ou premeditado. Constatei logo após ter realizado o fato, pressenti o prazer e iniciei a feitura completa. Assim passei a coçar o nariz, toquei os dedos na narina e fiz. Sem entender muito. Sem pensar. Foi automático. Faço e pronto. Coço o nariz por dentro e por fora. Às vezes até cutuco, tiro cascas e casacas. E daí? A moça chegou. Aquela de todos os dias. Não é sempre. Falo sobre o nariz, não da mulher. Ela eu enxergo no restaurante diariamente, na hora do almoço. Enquanto coço o nariz, ela se serve de saladinhas e pouca coisa nos pratos quentes. Por que? Ela não come comida de fogão? Bem, mas voltando ao meu nariz. Não é ato contínuo, furungo só quando tem as peles secas ditas. Estas cascas se criam regularmente e me irritam profundamente. É algo preso, fixo, não saí, obstáculo puro que dá vontade de limpar o salão sem sequer dançar a valsa. Deve ficar assim quando esqueço de assoar o nariz. No banho dou uma assoada, porém a preguiça bate e dia sim, dia não, faxino o nariz. Sequer limpo o mesmo nos dias não. Ando assim, um tanto indisposto. Esquecendo o nariz, cotovelos, calcanhares e unhas do dedo mínimo. Por que? Não sei. Talvez seja mal humor. Alguma falta química no organismo. Alguma perda não pressentida. Ela come tão devagar. Os cotovelos alinhados junto ao corpo. A cabeça muito erguida. Os cabelos para trás, bem comportados. Mastigação lenta. Pouca comida no garfo. Olhares baixos. Será que ela coça o nariz? Em que momento? Quando come? Ou escondida no banheiro? A verdade é que só questiono as coisas quando estas se tornam crônicas de alguma forma. Instalam-se como cupim na madeira e corroem, comem sem compaixão o que está ao redor. Comem, mastigam e engolem. Mas não excretam. As negações me fazem pensar. E depois de tanto pensar é que consigo tomar alguma atitude, daquelas de mudar a direção do que vem acontecendo. E a moça continua ali. Bem sentada. Ela parece a negação de tudo que questiono. Esta mulher me provoca. Odeio olhar para ela que nunca coloca o dedo no nariz. Ao menos disfarçadamente. Isto é o normal. Maluquice é este auto-controle das mãos. Quem explica? Coçar o nariz é quase uma regra diária. Já percebi o tocar, o fuçar. Já senti o sangue de tanto cutucar, só que recorrer a uma atitude não é nada fácil. Por que? Acho que meu nariz tornou-se um refúgio. Um esconderijo. Para tudo. Vou colocando ali medos, inseguranças, traumas, perdas, frustrações, sonhos não vividos. Todo o lixo de uma vida. Uma bagagem bem pesada e antiga, sem nada de doçura ou compensações. Uma mochila bem fechada ajustada nas costas. Fico tão reto com esta sacola que nem ouso olhar para os lados A bagagem dela deve ser maior que a minha. É o que parece. Ela não levanta os olhos! Não mexe as mãos e sequer coça o nariz! Quem é esta mulher? O que ela quer? Como pode viver desta maneira? Como ela faz para seguir em frente? Só arrumando as costas? E ela acorda naturalmente? Cadê a mochila dela? Por que ela não dá um sinal? Eu prossigo em linha reta para me servir no buffet, para não perder o ritmo do passo. Um após o outro. Continuo. E muitas vezes este seguir em frente de nada adianta. Apenas se passa e pronto. Os olhos alinhados não enxergam as árvores ao lado; o passarinho que voa em zigue zague; a estradinha curta com duas casas de madeira ao longo. Quanta coisa não se vê, não se sente.

E que besteira toda é esta de estradinha, passarinho, carinho, amiguinho? Eu não convivo com nada disto. Só pelo livro bonitinho que comprei na semana passada. Lá tem tudo isto. É uma fazendinha de vida simples. Conta a história de um homem e de uma mulher. Casados. O homem muito calmo e a mulher... como era mesmo a mulher? Lembro só do trecho da torta de maçã, que ela colocava o doce recém feito para assar e esperava o marido retornar do trabalho. A moça do restaurante! A moça do restaurante é a do livro! Sim, elas são a mesma pessoa. E nenhuma coça o nariz! Mas... Como pode? A não ser que... não pode?!... claro! Elas vivem uma vida modesta, discreta, contida. E aqueles que têm tudo contido não podem coçar o nariz. Pois coçar o nariz é mexer no não contido. É mexer no espalhado que não quer se juntar.

Por isto que continuo coçando o nariz. Na frente de todos. Com cada um dos meus dedos. A mulher levanta-se e vai pagar. Deixo meu prato na mesa, cheio de comida e corro para vê-la. Preciso ter a certeza de que ela realmente não coça o nariz. Se assim for saberei que o livro é de verdade e não enganação sobre coisas “inhas”. Ela tira o dinheiro da carteira e entrega ao caixa. Seus olhos acompanham as mãos do atendente, que devolve o troco. Guarda as moedas na bolsa e libera as mãos. É agora! Irá ao nariz. A moça, de gestos leves durante o almoço, passa a mão numa mecha de cabelo que caí sobre a testa e a prende atrás da orelha. (PSV)


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sem Cobertas

Ao entrar em um quarto de hotel, por que a cama é o primeiro foco? Serão as fantasias fazendo cócegas por nosso corpo? Por que essa se existe a banheira ou o chuveiro, o tapete ou o piso, o estar sentado ou de pé? Nunca pensei em Ceci ali. Apenas nos meus braços. Percebi o susto nos seus olhos ao ver uma só coberta, discreta, para toda a cama de casal. No mesmo instante sua voz despertou em uma sugestão de lençóis separados. Sem problemas, somos amigos. E sentada no lugar de deitar, tentando aparentar uma segurança, fico do lado direito e você no esquerdo. Gosto de ficar o mais perto possível do banheiro você se importa? Não a contariei. Pouco importava-me as posições, apenas o cheiro dos seus cabelos, a maneira de encostar um joelho no outro quando deitada de lado. Ceci confundia-me. Parecia uma menina precisando de colo e também se mostrava uma mulher desejando ser amada. Casado eu era, mas não tinha filhos e também buscava um outro amor. Teria tudo? Surpresas da vida, que acontecem até mesmo para os descrentes.
Você não ficará chateado, não é? Com o quê? Com as cobertas separadas. Eu me mexo muito e com certeza puxarei tudo para mim. Você passará frio. Ao seu lado passarei frio? Terei seu calor, seus beijos apaixonados. Ceci não escutou a voz de meus pensamentos. Calei-me e deixei que ela brincasse combinando a fronha estampada com a clocha de outras cores. Parei olhando aquele móvel tão grande, distante e vazio. Em cada canto uma alma não desnuda. Em pleno auto inverno siberiano. Existirá minuano na estação dela? Eu criava uma ilusão que não se realizaria naquele leito. Não tocaria seus cabelos nem acariciaria seus seios. Estar dentro de Ceci não seria real. A cama já tinha muralhas, arame farpado e castigos. Deitaria com suas costas e dormiria pensando nos beijos, no seu cheiro, nos olhos semi cerrados, num gozo que esperava ter. Ela estava cansada. Repetia a toda hora. Eu esquecera meus delírios, por que a repetição? Talvez para ela se convencer de que estar ali comigo não era nada demais. Somos apenas dois amigos cansados de uma viagem, onde nossas mãos estiveram juntas. Apenas dormiremos na mesma cama. Nossas cobertas estarão separadas. Um não sentirá o calor do outro. Não existe perigo algum. Somente uma noite. Não temos segredos para trocar, nem intimidade para viver. Viajamos juntos para ver o mar. Será amanhã, molharemos os pés e depois, com as almas arejadas, a viagem de volta. Talvez sem as mãos juntas.
Agora me resta a cama com Ceci. A noite sem Ceci. O ter quase tudo e continuar imaginando. Fico sem jeito e não me atrevo a tirar a roupa na sua frente. Vou ao banheiro. Quando ela apaga a luz saio tateando o caminho até o lugar marcado para mim naquela cena. Boa noite Ceci. Boa noite desculpe estou com tanto sono. Depois do seu bocejo os meus olhos cravam no teto. (PSV)