segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Voando por espaços não delimitados, Kira Luá flutua, esbarra e toca a alma alheia



Kira, Kira, Kira... mulher de cabelos vermelhos (ela é loira, mas se prefere ruiva), de sorriso largo. Vi Kira em exposições de artes e de fotos. Depois vi Kira doando sangue. Enxerguei Kira em dores e momentos de amores. Kira é uma poesia feminina de sobrenome Burro, mas artisticamente se denomina Kira Luá, Diz que tem quase meio século de vida, que é franco-brasileira. Mora um pouco em Gramado e um pouco em Porto Alegre. “Se não morasse aqui, eu moraria na França, numa das cidadezinhas medievais, no alto do morro, com as rosas mais lindas que eu já vi, ou numa ilha em águas verde turquesa, com sol todos os dias para me fazer voar, nos sonhos e nas nuvens”, e é assim que artista se conta.



Tem dois filhos, dos quais conta lindas histórias: “o Jacques, tem 19 anos, desenha super bem, meu orgulho!, um cara super legal, lembro dele quando tinha uns dois aninhos, e olhava para as esculturas dos Atletas do pai, Mario Palermo, morria de dar gargalhadas e eu junto, pois ele ria tão gostoso. Minha filha é a Giulia Palermo tem 16 anos, é minha flor,que me faz ser alegre e a mãe mais feliz do mundo, ela é muito criativa , lembro dela quando pequeninha, eu estava amarrando seu sapatinho e disse para ela: Vocês são meus tesouros e aí ela me respondeu: Eu não, eu sou tesoura... hehehe quase morri de rir...acho que os dois dão um banho de criatividade na mãe, as vezes eles são mais tranquilos e equilibrados , cuidam de mim”.

No ano passado Kira foi para Porto Alegre/RS e montou um ateliê, um espaço para arte-educação ambiental, afim de trabalhar conceitos de sustentabilidade, natureza e arte. “Realizamos com o Coletivo Paralelo 29 (composto por Mario Palermo, Gilmar Stahl, Rita Gil e Kira), uma instalação para a Bienal B, que foi uma experiência incrível. Este ano, devido à problemas de saúde com meu pai tive que retornar à Gramado e cuidar dele e meu espaço ficou parado. Mas mesmo assim, com coceguinhas no pé, eu não consigo ficar sem criar, e no começo do ano fiz a curadoria da exposição " Cabeças Cheias de Histórias" de Rita Gil , em Gramado, vários projeto de arte  e vídeo. Trabalhei como arteterapeuta, na APAE, de Gramado, por 4 anos, no presídio do Carandiru (SP), em 2001 e numa clínica de suporte aos pacientes com câncer avançado. Vim para Gramado, a pedido de meu irmão, para montar uma oficina de arte no hotel da família, o Le Château, e acabei montando um SPA artístico, que foi um espaço pioneiro. Atualmente , meu trabalho é em cima dos pregos velhos enferrujados e tortos, numa linguagem lúdica e alegre em papel –machê”.



Suas inspirações são Marcel Duchamp, Gaudí e Nikki de Saint Phalle, artistas que valorizaram a cor, as formas e fugiram da representação tradicional. “Gosto de transitar em vários territórios expressivos, desde as artes visuais, teatro, performance e vídeo...cada momento me inspira um trabalho novo, gosto de desafios e fazer aquilo que eu nunca tinha feito antes, mas na verdade, faço um mix de tudo para poder me expressar, a cada trabalho de maneira nova, assim, eu me renovo e me recrio com as obras...No meu blog falo sobre isso... http://kiralua.blogspot.com “.



Entre os fatos marcantes está a morte precoce do irmão, que a trouxe para Gramado, em 2007, dias depois que o meu irmão, também jovem, faleceu. Enquanto escrevo este texto, Kira está velando seu pai, que faleceu em função de um câncer. Quando caminhos se cruzam é bom parar e pensar no motivo deste cruzamento. Algo a aprender? Algo a compartilhar? Algo a dizer?



E se Deus te dissesse Kira, que você pode mudar algo, o que você mudaria? “Em mim eu mudaria o medo de me perder e não ser feliz. No mundo, eu acabaria com o dinheiro e com os preconceitos”

Kira e suas pedras sagradas

 A moça, que usa vestidos e sandálias no verão e no inverno se enrola em lenços e cachecóis de lã, se não fosse artista seria antropóloga, cantora. Também ceramista, se joga de mãos ágeis no barro. “Argila é para mergulhar, interagir, penetrar, modelar, é deixar surgir, é concretizar, é poder brincar de Deus, e colocar as sensações mais profundas que vem da terra e do coração para a terra”, conta ela, que já criou uma linha de utilitários em cerâmica.


Seu ateliê “é meio bagunçado, cheio de tudo, desde tintas, papéis de todo tipo, prensa, tecidos, sucatas, barro, gesso, ferro, madeira antigas, pedras, livros, muitos livros, música, plantas e em breve terá uma lareira”. Kira é daquelas que caminham buscando algo além do olhar rotineiro “fazendo uma caminhada, em Gramado, encontrei, numa construção, uma sucata de ferro, toda retorcida de 3m por 3 metros. Eu olhei, ela estava quase pronta, era um tanque de leite, vai virar uma escultura enorme para um parque... adoro fazer arte pública”.



Hoje Kira é muitas cores. Ontem foi preto e antes de ontem, terra e entardecer.


1 comentários:

  1. Como é revigorante ler o que é ditado pela alma.Realmente Kira Luá já deve saber porque voltou.Mas,de certa forma fica sempre sua escolha: uma cidadezinha medieval francesa...c'est le paradis!
    Patrícia, mais um texto brilhantemente escrito pelo coração.

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