sexta-feira, 30 de março de 2012

Iogurte de Morango



Patrícia
Soares Viale – abril 2.007

Como a senhora está? Sente-se melhor? Fizemos uma lavagem no seu estômago. Agora a senhora ficará em observação. Com a voz quase sumida e os olhos sensíveis à luz, Marina de Azevedo balbuciou umbem”. Iria completar com umobrigada”, mas não teve condições de continuar. Preferiu calar-se para organizar os pensamentos. Era para estar morta, ao lado do Poeta. O quê fazia num hospital? Quem a teria socorrido? A enfermeira, muito solícita, parecia ter adivinhado seus questionamentos. A senhora foi trazida por sua faxineira. Ela havia esquecido na geladeira o iogurte de morango que a senhora deu a ela e como a afilhada estava na casa dela voltou para buscar o iogurte que daria de presente para a menina. Ela sabia que era horário da senhora estar em casa e achou tudo muito quieto. Então começou a procurar pela casa e viu que a senhora dormia profundamente. Mas ela também sabia que não era hora da senhora estar dormindo. ela suspeitou que algo estava errado e foi procurar nos lixos do banheiro e da cozinha alguma coisa. Ela disse que a senhora é muito organizada e não deixa nada fora do lugar. Foi quando ela encontrou a cartela de barbitúricos vazia em um dos lixos. E ela sabe que a senhora não toma remédio algum porque uma vez a senhora contou isto a ela. Assim ela chamou a ambulância e a senhora foi salva. Agora descanse que depois o médico voltará para vê-la. A enfermeira apagou a luz central deixando acesa a luminária que estava sobre a mesa branca.

Salva? Como ela pode dizer isto? Agora é que estou condenada. Nunca mais conseguirei encontrar o Poeta. Era o sinal. O livro na mesa da minha colega, aberto emMinha Amante”, pedindo minha volta. Era o sinal com certeza. Eu sei que era. Seria o reencontro. A volta aos braços dele. A paz tão desejada. Por que aquela mulher ousou se intrometer? Por que ela voltou? Maldito iogurte de morango. Quem terá me amaldiçoado? Teresa, Carolina? Como elas odiavam nosso amor. Se pudessem rasgariam as entranhas para serem dignas de tamanho sentimento. Elas foram somente musas, momentos, fugas. Eu fui Marina de Azevedo, a mulher de Álvares.
Mocinha li o poemaMinha Amante” e tive certeza de que ele me queria. Apesar de seus silêncios, do pudor, me tinha ele como a sua querida. Copiei aquelas palavras com cuidado e escondi o papel num canto do guarda-roupa, onde ficavam outros mimos. O Poeta era meu mimo predileto.
Achas tu que não voltarei aos teus braços? Voltarei aos teus abraços, aos teus lábios, aos teus beijos. Beijarei-te sem vergonha, sem compromisso. Tenho sede de ti. Não somente de teus beijos, mas do teu ofegar ao me ver. Da tua timidez ao me pressentir. Sou tua, Poeta, e não me atrevo a mentir. Que me açoitem, mas não se coloquem no meu caminho. Direi adeus aos meus pais, a meu irmão e a toda esta vida de solidão disfarçada. Serei tua ternura e teu pouso seguro.
Mas minha mãe abriu o armário. Queria arrumar um vestido e encontrou teu poema. Acusou-me de libertina. Disse que eu mentia sobre minha castidade, que eu era indecente. Não sou nada mãe. Sou apenas a amante do Poeta. Nas noites quentes fujo pela janela do meu quarto para encontrá-lo. Para entregar-me no seu pobre leito ou até mesmo no relento. Sou apenas uma mulher apaixonada, minha mãe. Porém minhas explicações de nada adiantaram. Ela contou ao meu pai, que exigiu satisfações de meu irmão, teu amigo tão devotado. Ele disse que tu tinhas partido para o Rio de Janeiro, doente, que não era mais uma ameaça. Meu pai silenciou e logo após disse que sua filha não ficaria desonrada às vistas de todos. Um passo à frente. Estou grávida de meu amante. E meu pai deu-me um tapa no rosto. Minha mãe chorou e meu irmão sentou-se em uma cadeira de canto com a cabeça entre as mãos. Disseram que eu não tinha escolha. Que não sabia me portar como uma moça decente. E tua ausência quase fez com que eu acreditasse nas palavras deles. Minha mala foi feita e viajei. Ficaria o próximo ano na casa de uma tia, que morava no interior. A criança seria dada à doação e aos vizinhos contariam que complicações de saúde pediam um clima ameno. Fui embora sem lágrimas ou remorso. Eu estava grávida, totalmente prenha do Poeta e teria esta criança. Seria o nosso elo. Mesmo que eu não criasse nosso filho, comigo estava a certeza de que este amor se manteria vivo, vingado num ser de luz que avançaria no tempo. O sinal se fez presente. Tu me esperas. Isto está claro. Quando eu for liberada deste hospital irei ao teu encontro e desta vez não terei iogurtes de morango na geladeira.

terça-feira, 27 de março de 2012

Conde Guloseima entra para a grife do Chocofest



Personagem agora tem boneco, chocolate e lápis

A grife do Chocofest, em Gramado/RS, ganha dois novos produtos a partir desta edição. Com o sucesso do Conde Guloseima, neste ano estão sendo lançados o boneco, o chocolate e o lápis do personagem. Os itens serão comercializados no Planeta do Chocolate (Rua Coberta), durante todo o período do evento, de 22 de março a 8 de abril.



O boneco do Conde tem cerca de 30 centímetros e foi criado pela bonequeira gramadense Sandra Mara Soares, que há dez anos se dedica à profissão. Além das 100 unidades iniciais produzidas para a venda, outras 160 estão decorando a Rua Coberta. “A produção é toda artesanal, mas estamos confeccionando os Condes em série”, comenta Sandra.
Já o Conde Guloseima que promete fazer crianças e adultos se lambuzarem é de chocolate caseiro preto, com detalhes em chocolate branco e colorido, assinado pela fábrica Lugano. Tem 20 centímetros e é uma cópia perfeita do personagem.
Ainda para a criançada levar para a escola ou brincar, estará sendo vendido o lápis de escrever do Conde.

O CHOCOFEST
O Chocofest – Páscoa em Gramado será realizado de 22 de março a 8 de abril de 2012. A cidade será palco de muito encanto, emoção e doçura. Conde Guloseima e seus amigos preparam uma nova festa, resgatando as antigas tradições de Páscoa, unindo o lúdico à espiritualidade e despertando a emoção de crianças e adultos. Os detalhes da programação podem ser conferidos no site www.chocofest.com.br.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Rinotilexomania


Se minha tarde for como a tal manhã de hoje, juro que me rasgo inteiro. Talvez começando pela boca. Comer de cabeça cheia será difícil. O nariz me coça e coçar não adianta enquanto eu não digerir a manhã. Céu claro, trânsito caótico, reclamações sem motivo, ligações mal interpretadas e o meu nariz reclama. Eu coço o meu nariz. Por dentro e por fora. Violentamente sem resquício algum de suavidade. Às vezes até sangra. Me assusto, trato com remédio sério então. Olho o vermelho chamando minha atenção. Procuro lenço. De papel ou de pano. Mas não encontro nada. Passo os dedos pela cartilagem e limpo nas calças. Vou curando cada ferida momento a momento e curado o nariz volto a coçar.
Ao entrar no restaurante de todos os dias foi desta maneira que começou. Tempos atrás importunei o nariz de leve. Mal toquei. Acho que foi bem assim. Um ato inconsciente ou premeditado. Constatei logo após ter realizado o fato, pressenti o prazer e iniciei a feitura completa. Assim passei a coçar o nariz, toquei os dedos na narina e fiz. Sem entender muito. Sem pensar. Foi automático. Faço e pronto. Coço o nariz por dentro e por fora. Às vezes até cutuco, tiro cascas e casacas. E daí?  A moça chegou. Aquela de todos os dias. Não é sempre. Falo sobre o nariz, não da mulher. Ela eu enxergo no restaurante diariamente, na hora do almoço. Enquanto coço o nariz, ela se serve de saladinhas e pouca coisa nos pratos quentes. Por que? Ela não come comida de fogão? Bem, mas voltando ao meu nariz. Não é ato contínuo, furungo quando tem as peles secas ditas. Estas cascas se criam regularmente e me irritam profundamente. É algo preso, fixo, não saí, obstáculo puro quevontade de limpar o salão sem sequer dançar a valsa. Deve ficar assim quando esqueço de assoar o nariz. No banho dou uma assoada, porém a preguiça bate e dia sim, dia não, faxino o nariz. Sequer limpo o mesmo nos dias não. Ando assim, um tanto indisposto. Esquecendo o nariz, cotovelos, calcanhares e unhas do dedo mínimo. Por que? Não sei. Talvez seja mal humor. Alguma falta química no organismo. Alguma perda não pressentida. Ela come tão devagar. Os cotovelos alinhados junto ao corpo. A cabeça muito erguida. Os cabelos para trás, bem comportados. Mastigação lenta. Pouca comida no garfo. Olhares baixos. Será que ela coça o nariz? Em que momento? Quando come? Ou escondida no banheiro? A verdade é que questiono as coisas quando estas se tornam crônicas de alguma forma. Instalam-se como cupim na madeira e corroem, comem sem compaixão o que está ao redor. Comem, mastigam e engolem. Mas não excretam. As negações me fazem pensar. E depois de tanto pensar é que consigo tomar alguma atitude, daquelas de mudar a direção do que vem acontecendo. E a moça continua ali. Bem sentada. Ela parece a negação de tudo que questiono. Esta mulher me provoca. Odeio olhar para ela que nunca coloca o dedo no nariz. Ao menos disfarçadamente. Isto é o normal. Maluquice é este auto-controle das mãos. Quem explica? Coçar o nariz é quase uma regra diária. percebi o tocar, o fuçar. senti o sangue de tanto cutucar, que recorrer a uma atitude não é nada fácil. Por que? Acho que meu nariz tornou-se um refúgio. Um esconderijo. Para tudo. Vou colocando ali medos, inseguranças, traumas, perdas, frustrações, sonhos não vividos. Todo o lixo de uma vida. Uma bagagem bem pesada e antiga, sem nada de doçura ou compensações. Uma mochila bem fechada ajustada nas costas. Fico tão reto com esta sacola que nem ouso olhar para os lados A bagagem dela deve ser maior que a minha. É o que parece. Ela não levanta os olhos! Não mexe as mãos e sequer coça o nariz! Quem é esta mulher? O que ela quer? Como pode viver desta maneira? Como ela faz para seguir em frente? arrumando as costas? E ela acorda naturalmente? Cadê a mochila dela? Por que ela nãoum sinal? Eu prossigo em linha reta para me servir no buffet, para não perder o ritmo do passo. Um após o outro. Continuo. E muitas vezes este seguir em frente de nada adianta. Apenas se passa e pronto. Os olhos alinhados não enxergam as árvores ao lado; o passarinho que voa em zigue zague; a estradinha curta com duas casas de madeira ao longo. Quanta coisa não se , não se sente.
E que besteira toda é esta de estradinha, passarinho, carinho, amiguinho? Eu não convivo com nada disto. pelo livro bonitinho que comprei na semana passada. tem tudo isto. É uma fazendinha de vida simples. Conta a história de um homem e de uma mulher. Casados. O homem muito calmo e a mulher... como era mesmo a mulher? Lembro do trecho da torta de maçã, que ela colocava o doce recém feito para assar e esperava o marido retornar do trabalho. A moça do restaurante! A moça do restaurante é a do livro! Sim, elas são a mesma pessoa. E nenhuma coça o nariz! Mas... Como pode? A não ser que... não pode?!... claro! Elas vivem uma vida modesta, discreta, contida. E aqueles que têm tudo contido não podem coçar o nariz. Pois coçar o nariz é mexer no não contido. É mexer no espalhado que não quer se juntar.
Por isto que continuo coçando o nariz. Na frente de todos. Com cada um dos meus dedos. A mulher levanta-se e vai pagar. Deixo meu prato na mesa, cheio de comida e corro para vê-la. Preciso ter a certeza de que ela realmente não coça o nariz. Se assim for saberei que o livro é de verdade e não enganação sobre coisas “inhas”. Ela tira o dinheiro da carteira e entrega ao caixa. Seus olhos acompanham as mãos do atendente, que devolve o troco. Guarda as moedas na bolsa e libera as mãos. É agora! Irá ao nariz. A moça, de gestos leves durante o almoço, passa a mão numa mecha de cabelo que caí sobre a testa e a prende atrás da orelha

sábado, 24 de março de 2012

Santos de outubro



Salve
os santos de outubro, antes que o incêndio de novembro queime todos! Estava escrito no pano que ficava em frente à igreja. Todo ano a faixa era pendurada pelo padre quando o mês 10 iniciava.
Onde moro os santos são tidos como mais santos que em outros lugares. Talvez porque os moradores daqui se achem mais beatos que os de . sei que por aqui existe este pensamento. Mas hoje acordei com grande espírito de porco. Acordei e coloquei todas as propriedades naturebas fora. Com a enxada destruí minha pequena horta de temperos e me entupi de porcarias industrializadas. Meu momento é de cuspir na cara de quem não vou com a cara. Sem grandes avaliações. Não gosto da tua cara e toma um cuspe. É assim que vivo o dia de hoje. Minha mãe torce para que o amanhã chegue com um sinal. Estou fazendo alguns planos para o resto da semana: iniciar a campanha de salvamento dos santos, pois o incêndio de novembro é certo. Todo ano acontece. Acusar os Zhotes de calúnia movendo um processo milionário. O casal tem três filhas virgens. Pretendo seqüestrar as três e entregá-las para os três piores bandidos da região. Este é o destino das moças. Ontem joguei as cartas e isto estava escrito. vou dar um empurrãozinho. Tenho bastante trabalho até os últimos dias. No sábado irei tomar banho, colocar uma roupa nova, e tomar veneno. Minha missão estará cumprida e poderei sossegar. Estou disposto a conhecer outras terras. Saturei-me destas. Falta pouco. Quem esperou até agora espera mais um tanto.
Outubro é mês de poucos impactos. Quase não chove, quase não faz calor, quase não faz frio. Na cidade pouca coisa acontece; Talvez por isto o Maior tenha permitido o grande incêndio em novembro, para agitar os ânimos. Nasci em outubro. Minha mãe disse que eu era um bebê muito feio e manhoso. Que ela e as minhas tias olhavam apavoradas para minhas feições, que não eram nada harmônicas. Minha mãe, numa noite muito escura, confidenciou ao meu pai que pretendia me dar de presente a um santo. Para que este tivesse piedade de mim e assim permitisse uma vida tranqüila, com poucos traumas e chacotas. A dúvida era: qual dos santos gostará de receber tal regalo? Meu pai deu de ombros. Era devoto de São Francisco de Assis e achava que o protetor dos animais não aceitaria garoto tão sem graça como eu. Mamãe concordou e naquela mesma noite rezou muito para que o santo certo a orientasse na escolha. Sei que meses se passaram e nenhuma alma manifestou interesse em me proteger. Eu tinha um ano e dois meses. Sequer tinha sido batizado. Minha mãe aguardava ansiosa a resposta e antes desta nada seria feito. Fiquei pagão até hoje. E tenho meus enta anos. Minha mãe tem a cabeça branquinha e passa os dias rezando o terço para que sua pergunta seja respondida. Meu pai morreu tentando evitar o atropelamento de um cachorro. Puxou a direção e o carro capotou. Nem deu tempo de socorrê-lo. Ele não usava cinto de segurança.
Cresci traumatizado com a minha feiúra, com a falta de namoradas, os “meu deus, meu credo” das minhas tias quando visitavam nossa casa. Recusei-me a estudar os santos no colégio por causa do silêncio insistente de todos. Se não podiam me ajudar, por que eu deveria conhecê-los? Não tinha sentido. Meu envolvimento, com o incêndio de novembro, aconteceu porque sou bombeiro. Então quando os santos incendeiam, correm os bombeiros para apagá-lo. Sempre apagamos o fogo e salvamos os santos chamuscados. Enfim, realizamos nosso trabalho de maneira completa e correta. Os bombeiros são corretos. Vestem seus uniformes, sobem no caminhão, manejam as mangueiras de água contra o fogo e ali ficam até executar seu serviço: encerrar as labaredas. Fica a fumaça e aquele cheiro enjoado de coisa queimada. Não é bom, porém necessário. Terminada nossa atuação voltamos confiantes para nossos lares.
Porém nesta semana estou questionando o salvamento dos santos. Não tenho problemas espirituais, mas não será momento destes santos queimarem e outros virem aos seus lugares e estes responderem, enfim, a minha mãe? Pela primeira vez estou revoltado. São sete santos no altar principal e dois pequenos anjos na bancada do lado direito. Tudo muito branco. As mulheres da cidade limpam diariamente este lugar. Lavam com sabão e escova grossa. Esfregam. Passam pano. Nenhum canto passa desapercebido. Mesmo assim nenhum santo se manifestou nestes anos todos. Entrei na igreja e fiquei olhando-os. Pensando nos últimos acontecimentos. Nas safadezas dos Zhotes. Eles doaram um terreno pedregoso à igreja e toda cidade esqueceu os roubos do Zhote Pai na prefeitura. Numa noite o homem estacionou o caminhão do Batista em frente ao órgão público e fez uns meninos carregarem os estofamentos de couro, as cadeiras forradas de veludo, a prataria que decorava a sala do executivo, fora outras coisas de valor considerável. Os santos fizeram vista grossa. Claro, o terreno tinha o seu valor, mas colocar as duas mãos sobre os olhos era demais. Dai-me a paciência, Nossa Senhora dos Aflitos! Naquela cidade ninguém enfrentava a família, que tinha três filhas virgens. Talvez porque acreditassem num possível casamento proveitoso. Talvez por medo. Não sei. O que eu sei é que não tenho medo e vou contratar três bandidos da região para pegarem e currarem as doces meninas. Por que as indecentes deveriam se manter imaculadas enquanto as outras meninas da cidade se prostituíam para garantir o arroz e feijão na mesa de suas famílias famintas? Não. Elas pagariam pelos erros dos pais, sim. Se ficarem com traumas que paguem psiquiatras. Dinheiro sobrando e roubado eles têm. É tanta coisa por fazer nestes poucos dias. Preciso eleger prioridades. Não sou Deus para resolver todos os problemas.
E ainda tem minha mãe. Coitada! Reza dia e noite, mal come, se ocupa com velas, terços e rezaduras de domingo a domingo. Vivemos na mesma casa, mas confesso que me sinto muito sozinho. Como posso suportar ver tal cena durante anos? Enquanto as mães dos meus colegas os levavam ao parque nos finais de semana, ficava eu acompanhando a ladainha das contas do rosário. Pobre Maria que tantas vezes foi aclamada em horas tão vagas! E quantas vezes o Pai, que é de todos nós, desceu dos céus apavorado para ouvir as suplicassem fim de minha mãe? Deviam pensar eles que era caso de doença, ou de aflição terrível. Porém minha mãe nunca pediu nada além da indicação do santo que harmonizasse minhas feições. Nem mesmo pela morte de meu pai ela orou. Colocou preto. Chorou por uns poucos dias no quarto e depois voltou a rezar pelo sinal do santo.Uma meta de vida. Pobre mãezinha, tão obcecada, tão louca. E eu, seu filho. Nós dois esperando por um amanhã sem certezas.
Voltando aos santos mudos tenho duas alternativas: coloco atestado médico no dia do incêndio ou apago o fogo como nos outros anos. Preciso decidir o quanto antes, pois faltam poucos dias. Minha vontade é encerrar tudo no sábado, após a última refeição. Esquecer feiúra, mãe, santos, Zhotes e o diabo que nos carrega diariamente. Mas não posso. O conflito se instaurou na minha cabeça e agora preciso resolver isto, senão as noites serão sem sono tranqüilo, sem estômago para comer, sem paciência para suportar o dia-a-dia. Por que conflitos não se resolvem por si? De uma maneira automática? Receba o comando de resolver-se e pronto. Precisamos de soluções mais simples, como escolher a cor da camiseta que vestiremos no início do dia. Coisas que se pode colocar na mão, que se pode tocar. Como o barro, que moldamos com os dedos curiosos. Insatisfeitos mudamos tudo, desmanchamos e refazemos na argila. Nem iluminação posso pedir aos santos, que estes nunca se interessaram pelo meu caso.
Faltam cinco dias para novembro. São cinco dias inteiros para pensar no que farei ou deixarei de fazer. Não pedirei conselhos. Não ouvirei resmungos. Apenas pensarei nestes cinco dias e no quinto agirei. Assim agem pessoas de bom senso e não ansiosas.
Os dias passam rápido. Manhã, tarde, noite. O sol levanta e adormece. A noite também nãotrégua. O tempo é pura ansiedade. O quinto dia desperta. Espreguicei-me e calcei os chinelos. Abri a janela do quarto e vi que a cidade ainda dormia. Coloquei o casaco por cima do pijama, cabelo desgrenhado e caminhei até a igreja. No bolso interno, uma caixa de fósforos, colocada na véspera. Acendi o primeiro fósforo, olhei para a chama e aproximei-a da cortina de tecido fininho que envolve o altar principal. Segundo fósforo. Terceiro fósforo... dez no total. Tudo feito. tempo ao fogo. Apenas espere. Você agiu.
Fiz o sinal da cruz e fiquei próximo à porta da igreja. Os bombeiros dormiam. Acontecia o incêndio de novembro um pouco antes da hora. Nada doeu. Nem um músculo contorcido. Apenas um fascínio pela luz vibrante. Eis a luz da purificação. Eis a luz que tudo limpa. Se os santos não quisessem me ajudar ao menos eu estaria purificado deste momento em diante. Uma nova fase em minha vida. Eu podia me sentir até bonito. Lindo não, mas bonito. Além disto, quantas pessoas não estariam desejando o incêndio de novembro. De repente, para mais alguns, estas chamas seriam também salvação. Enquanto o altar ardia encostei os joelhos no chão. Sorrindo rezei ao senhor do Fogo. Então era este meu santo? As rezas saíram naturalmente para ele. O responsável por provocar incêndios, por queimar a matéria mais resistente. Eu era seu protegido desde meu nascimento, mas agora percebia. Perdoe-me senhor, por tamanho descaso nestes anos todos. Agora estou aqui de joelhos e entregue ao seu chamado. Faça de mim seu enviado. sinto a sua força. Guie-me por este mundão. Eu irei conduzir sua chama onde se fizer necessária. Uma mão interrompeu minha oração e puxou-me pelo braço ou pelo ombro. Fui arrastado para a rua sem saber como ou por quem. Na rua, tossindo muito, reconheci o rosto de um colega bombeiro. O fogo começou antes do previsto e você quase foi junto. Ele estava sozinho, de pijama, sem o caminhão, sem as mangueiras de água. A cidade, apesar das chamas altas, que consumiam a igreja, ainda dormia. Não sei como acordei. Tenho o sono pesado. Acho que desta vez nada poderemos fazer. A conformidade de meu colega me fez levantar e olhar o fogo por outro ponto de vista. Eu tinha vencido. Ninguém faria nada para apagar o fogo. Pessoa alguma iria se intrometer nos destinos dos santos de outubro. O senhor do Fogo estava certo. Havia ele conduzido minha mão com maestria. Minha mãe estava livre daquela obsessão. Sua meta fora atingida. Quem sabe agora os Zhotes seriam punidos? Um no caminho estava se criando. A vida teria graça a partir de então. Eu poderia ter uma namorada. Não seria mais chacota das velhas da cidade. Saberia para quem direcionar minhas orações. Eu não estava mais sozinho. O outro bombeiro baixou a cabeça e disse que voltaria para casa. Nada poderemos fazer desta vez. O incêndio de novembro foi traiçoeiro. Daqui a pouco a cidade vai acordar e teremos que dar alguma explicação. Vamos nos vestir e nos preparar. Ele saiu muito cabisbaixo. Mal percebeu minha alegria. Meus olhos brilhavam e dançavam no ritmo das chamas. Também queria me vestir. Estava ansioso para enfrentar a cidade, ouvir os comentários, as suposições. Ficaria quieto e orgulhoso. Estava tudo terminado.
Voltei para casa sujo, mas confiante num futuro melhor. Entrei no quarto troquei de roupa. Lavei o rosto, arrumei os cabelos. Minha mãe deve estar fazendo o café. Estou com fome. Este fogo todo abriu meu apetite. Mãe, vamos tomar café. O dia será longo. Mãe, mãe. Ao abrir a porta do seu quarto senti um cheiro de queimado. Ela estava no chão. Queimada. Morta. Com as mãos unidas no terço. Com a pele retorcida. Grudadas no teto do quarto, trechos de suas orações rotineiras. Todas chamuscadas.