segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Festival de Docices e Delícias no Dia das Crianças

A magia do Dia das Crianças é a inspiração para a quinta edição do Festival de Docices e Delícias.








O evento será realizado no dia 12 de outubro (domingo), das 14h às 19h, no Universo Viale, em São Francisco de Paula (RS) e promete agradar os visitantes com inúmeras opções de doces e salgados desenvolvidos artesanalmente.
Aproveitando a temática lúdica e divertida, os expositores apresentarão versões ainda mais coloridas e enfeitadas de brownies, brigadeiros, cupcakes, pizzas, pastéis, bolos, alfajores, biscoitos, hambúrguer, cachorro quente de forno e outras inúmeras opções de gostosuras. “O universo infantil possibilita usarmos a criatividade na produção dos alimentos. Para os pais que desejam fazer um programa diferente para celebrar o Dia das Crianças, o Festival é uma ótima opção. Crianças e adultos poderão se deliciar com os sabores da produção da local”, destaca a organizadora do evento, Patrícia Viale.









Cada expositor conta com um espaço para apresentar e comercializar seus produtos. Para receber o público, a estrutura do Universo Viale conta com banheiro, ambiente climatizado (ar condicionado/calefação), mesas, internet e cozinha para armazenagem dos produtos.


Serviço:
Festival de Docices e Delícias – Entrada franca
Quando: 12 de outubro (domingo)
Horário: 14h às 19h
Local: Universo Viale (Rua Alziro Torres Filho, 1579 - Lago São Bernardo - São Francisco de Paula (RS) 

texto de Due Company e fotos de Rafael França.

domingo, 27 de julho de 2014

A meu filho, minha filha (em 17 de outubro de 2008)


Texto escrito em 17 de outubro de 2008... tão Maria Rita, sem desconfiar que era ela vindo!




Dentro de pouco tempo estarás aqui, entre nós. Tenha a segurança de que será bem recebido (a), de que muitas pessoas te esperam com ansiedade e amor. São tantos os desejos sinceros de muita saúde para ti. isto é o que mais importa, pois com saúde poderás alcançar os teus sonhos e as tuas metas.

Quando me descobri grávida fiquei assustada. Para falar a verdade sou um tanto egoísta e me detive a pensar como minha vida seguiria o rumo, planejado por mim, tendo a ti ao meu lado. Nunca fui muito boa nos caminhos à dois. Não é por mal. Sou atrapalhada para manifestar meus sentimentos, abraçar, procurar as pessoas. Talvez por isto eu escreva tanto. Mas com a evolução da gravidez uma segurança foi invadindo-me. Reclamei muito dos enjoos, da azia. Fiquei pasma com os quilos adquiridos e concentrados na barriga. Tudo se tornou passageiro como um desabafo. Em seguida aquela segurança inundava-me novamente e eu tinha vontade de abraçar a humanidade. Acho que esta é a missão dos filhos na vida dos pais: fazê-los vencer a comodidade do egoísmo e fortalecer-se para construir um mundo melhor para todos.

Não sou uma otimista convicta. Muito pelo contrário. Os dias cinzentos corroem minha alma e preciso de muito esforço para me levantar da cama. Mas quando eu levanto e vou até a janela, vejo as cachorras brincando e uma paz ressurge. Apesar de tudo, os animais insistem com a vida. As árvores seguem seu ciclo. os passarinhos voltam a cantar na primavera. A vida está ao nosso redor. E intensa na sua maneira de se expressar.

Quando me vi grávida eu não conseguia pensar no teu enxoval, nas tuas roupinhas. Minha preocupação era "o que vou oferecer a esta criança?". Olhei para os vários lados de meu mundão e do meu mundinho e fiquei ainda mais triste. Pessoas sem orientação, guerras, logros, falta de educação. O que irei te oferecer criança? Semanas atrás eu parecia uma ansiosa descontrolada querendo consertar o mundo que irá te receber. Senti ódio de quem não pensava como eu. Impus uma rotina pesada para um organismo que pede descanso temporário. Chorei muito. E tu, frágil coisinha forte, mostrou-se numa agitação sem tamanho. Sem querer deixei-me envolver pela pressão, pelo egoísmo, pelo falso poder do mundo de cá e te ofereci isto. Enquanto havia muitas outras coisas boas a te oferecer: brincar com as cachorras, plantar uma flor, arrumar a nova casa, caminhar, ler, escutar música, ajudar a quem precisa.

Meu anjinho, de largas asas que sacodem minhas costelas, não posso te dar um mundo mais harmonioso. Não posso te garantir convivência com pessoas do bem, mas posso te oferecer respeito, gentileza, amor, sinceridade e solidariedade. Esta foi a herança que recebi da vidae será esta a herança que te passarei. Acho que assim estarás preparado (a) para conhecer este mundo, ora estranho, ora lindo. Terás que aprender sobre a dor e a alegria. Terás que sentir os dias cinzas e os ensolarados. Algumas vezes cairá, mas tenhas a tranquilidade para sentir o tombo, olhar em frente e erguer-se. Minhas duas mãos estarão ao teu lado. É isto que posso te oferecer.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Maratona de Monólogos de Canela e Gramado... fôlego para a arte!


As fotos são de Sérgio Azevedo, que é fotógrafo, que é artista. A organização é da Companhia Lisi Berti, que só tem artista bom. Os apoiadores também são artistas. Eis uma boa junção: arte unida gera resultados positivos. Durante uma semana, em julho, os teatros de Canela e Gramado mostram talentos, debatem arte, incentivam dons e criam platéias. Trata-se de um evento único, singular, que deve ultrapassar as fronteiras da região em pouco tempo. É só continuar!


Fui jurada nesta Maratona de 2014 e fiquei surpresa com tudo que vi. Gente boa, esforçada, dedicada. Gente ambiciosa, que olha o mundo e recria no seu micro mundo. Adoro isto! Sou daquelas que "quer ganhar o mundo, ver o que acontece", mas não quero sair do meu pedacinho de chão. E vi que tem muita gente assim também!!!!! Que lindo!!!


Ousadia, petulância e talento!! Muito talento!!! Teatros de Canela e Gramado, abram seus palcos para este povo! Montem temporadas! Formem platéias, levem os colégios e seus alunos!!! Não deixem este povo ir embora atrás de melhores condições de trabalho.


São roteiristas, cantores, mulheres de alma sensível... gente que cria, recria, questiona, inova...


Se não cuidarmos deles, palcos de outros lugares levarão... um a um, todos eles! Sejamos responsáveis e comprometidos para que este pessoal continue trabalhando por aqui!!!


Eles se comprometeram com sua escolha maior: fazer teatro! Com texto, direção, cenografia, figurino, atuação e produção. Se comprometeram com divulgação, com manter a calma e amar o que se faz com o coração.


Não são seres inspirados! São seres que trabalham pelo que acreditam. Este é o segredo da vida, para todas as áreas. Fazer o que se gosta, independente de dinheiro, status social, promoção, facilidades.


Sejamos realistas. A vida é aqui e agora. Sejamos comprometidos com o que está na nossa região. Sejamos regionais e defensores dos nossos talentos.


Parabéns Maratona de Monólogos!!! Vida longa a este espetáculo!!!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

20 anos se passaram



Acordei com esta foto. Anos atrás reencontrei minhas colegas de faculdade Creuza e Deca e fizemos esta foto. Esta semana completamos 20 anos de formatura. Jornalismo na Famecos/PUCRS. Tanta coisa se passou neste período. É estranho pensar que vinte anos se passaram!!!!

Eu tinha 21 anos, estava formada e não sabia o que fazer. Mas sabia O QUE NÃO QUERIA FAZER. Eu não queria fazer o que os outros faziam! Eu queria ser correspondente de guerra na Angola. Eu queria ser Madonna. Queria ser escritora, viver um grande amor, correr o mundo atrás de verões e outonos, não fazer nada e ser muito feliz. Ambiciosa eu, não?

De lá para cá até que vivi muito de tudo isto (em outras proporções e com releituras!) Não fui correspondente de guerra, mas enfrentei minhas próprias guerras internas (e enfrento até hoje). Fui Madonna nas noites serranas e dançei muito, me exibi muito!!!! Amei e fui amada. Voltei a amar e sou amada!!!!! Sou escritora sim!!! Não reconhecida pelas grandes editoras, mas SOU!!!! Corri o mundo e descobri que o melhor mundo é aquele em que vivo, o mundo que carrego dentro de mim.

Estes 20 anos não foram desperdiçados. Foram vividos, questionados, amados, odiados, perdoados. Não virei mega star, como me imagina aos 21 anos. Saber quem sou é muito melhor! E que venham mais 20 anos...

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Abre a janela Marina

 Todas as manhãs, mas muito cedo da manhã, quem passa por aquela rua estreita, pode ver as janelas azuis da pequena casa número 165 se abrirem com desvelo. Cuidadosa é a sua moradora, Marina de Azevedo.



Diariamente, a moça de cabelos castanhos, não muito longos, se debruça sobre o peitoril da janela e fica observando a rua. Dizem que ela procura por um poeta. Comentam que é a viúva de Álvares de Azevedo. Outros debocham de sua loucura. Sabe-se que muitos homens já tentaram cortejá-la, mas tudo em vão. A moça não arreda pé e confirma fidelidade. Dia após dia. De uma maneira doce, com uma certeza que impressiona. Marina não muda as feições. Não expressa raiva. Não revela alegria. Sempre um sorriso tímido, de canto. Um olhar morno. De semblante determinado a percorrer quantas estradas forem necessárias. Sem se importar  se elas são de terra ou concreto. Distante, a montanha de aparência mansa e calada guarda um segredo
Tem olhos azuis acinzentados, nariz arrebitado e lábios finos. Seu rosto, de feições delicadas, é bonito e harmonioso. Geralmente prende os cabelos em um rabo de cavalo, que balança conforme seu andar miúdo. Mal faz barulho. Parece brisa de final de tarde. Sutil e nada pretensiosa. Apenas presente. Talvez assídua por mera obrigação da vida. Sempre usa roupas escuras, é muito magra e pouco conversa com os vizinhos. Nas raras vezes que Dona Rute conversou com a senhorita, de aparência tão jovial, notou que sua fala é serena e tranqüila. “É uma boa moça, mas muito quieta”, contou a senhora para a vizinhança.
Sabe-se que Marina é bancária e não cozinha. No seu lixo acumulam-se embalagens de comidas congeladas e semiprontas. Também se encontra muita nota fiscal de livrarias. “Nos finais de semana nunca vimos ela saindo à noite ou recebendo visitas. É uma moça muito estranha”, sussurrou Seu Ernesto, que mora na casa ao lado.
Na volta do trabalho, final da tarde, quando ela passa pela fonte de água, que fica no início da sua rua, é convidada a parar. Como se a bica cochichasse boas palavras. Calmamente larga a bolsa e molha suas mãos e pulsos. Molhar e esfregar. Sentir a própria pele. Quase como uma rotina. Nem ali Marina sorri escancarado ou chora lágrimas de verdade. Apenas segue o caminho já tão conhecido.


Apenas um desejo


Patrícia Soares Viale – Suíça – 24 de fevereiro de 2002




Mário, não sei se eu deveria estar aqui. E por que Marina? A água está acabando. Todos morreremos de sede. Como assim? Tenho lido nos jornais que a situação é mais grave do que imaginamos. Você já se imaginou morrendo de sede? A garganta deve ficar seca, tão seca, deve apertar tudo aqui dentro. E ela coloca a mão entra a barriga e o peito. Não gostaria de morrer assim. Marina, você não irá morrer de sede. As coisas são ditas dessa maneira para que a mídia possa vender. Não se preocupe. Como poderei escrever minhas memórias, se nem velha irei ficar? Como assim? Nada. Como nada? Você começou o assunto por favor, agora fale. Marina fica receosa. Olha para cima. Olha para Mário que não entende coisa alguma. Eu só quero estar com essa mulher, beija-la. E vem ela com morrer de sede, acabar a água... Mário, eu não posso morrer antes de ficar velha, porque quero escrever minhas memórias. Esse é meu maior desejo. Só isso. Mas você não é famosa, não é artista. Por que quer escrever suas histórias? Porque eu quero. Tudo na vida precisa ter motivo para os outros? Como você é chato de vez em quando! Não sou chato! Apenas quero entender. Você não tem que entender meus desejos! Quero contar minha história. Esse é o maior desejo de minha vida. Só isso. Mas qual o motivo? Você foi importante? Fez algo de grande? Não. Não fiz nada dessas coisas. Sempre fui muito normal, mas quero contar isso. Está bom assim? Mário fica impaciente. Não, não está bom. Isso não é normal. Normal é comprar uma casa, renovar o guarda-roupa, casar, viajar para o Caribe! Isso é normal! Querer ficar velha para escrever memórias não é normal. Mas é o que eu quero. Eu, Marina de Azevedo, quero, desejo isso. Esse é meu maior desejo. Pronto. O que Mário quer, ou qualquer pessoa é outra coisa. Dá para entender que todos somos diferentes? Não, não dá. Ninguém é diferente. Porque você seria? Você é igual a todos os outros. Nada tem de diferente. Eu tenho! Irei escrever minhas memórias e então, você entenderá. Não quero esperar você ficar velha. Mário parece abraçar a cabeça, mas é repentino. Marina, quero casar com você! Quero estar com você!

Marina olha para o lado e vê um corvo. Pensa no pássaro bebendo água. Lembra da bica d’água e sente saudades.

Santos de outubro

por Patrícia Soares Viale 

Salve os santos de outubro, antes que o incêndio de novembro queime todos! Estava escrito no pano que ficava em frente à igreja. Todo ano a faixa era pendurada pelo padre quando o mês 10 iniciava.
Onde moro os santos são tidos como mais santos que em outros lugares. Talvez porque os moradores daqui se achem mais beatos que os de . sei que por aqui existe este pensamento. Mas hoje acordei com grande espírito de porco. Acordei e coloquei todas as propriedades naturebas fora. Com a enxada destruí minha pequena horta de temperos e me entupi de porcarias industrializadas. Meu momento é de cuspir na cara de quem não vou com a cara. Sem grandes avaliações. Não gosto da tua cara e toma um cuspe. É assim que vivo o dia de hoje. Minha mãe torce para que o amanhã chegue com um sinal. Estou fazendo alguns planos para o resto da semana: iniciar a campanha de salvamento dos santos, pois o incêndio de novembro é certo. Todo ano acontece. Acusar os Zhotes de calúnia movendo um processo milionário. O casal tem três filhas virgens. Pretendo seqüestrar as três e entregá-las para os três piores bandidos da região. Este é o destino das moças. Ontem joguei as cartas e isto estava escrito. vou dar um empurrãozinho. Tenho bastante trabalho até os últimos dias. No sábado irei tomar banho, colocar uma roupa nova, e tomar veneno. Minha missão estará cumprida e poderei sossegar. Estou disposto a conhecer outras terras. Saturei-me destas. Falta pouco. Quem esperou até agora espera mais um tanto.
Outubro é mês de poucos impactos. Quase não chove, quase não faz calor, quase não faz frio. Na cidade pouca coisa acontece; Talvez por isto o Maior tenha permitido o grande incêndio em novembro, para agitar os ânimos. Nasci em outubro. Minha mãe disse que eu era um bebê muito feio e manhoso. Que ela e as minhas tias olhavam apavoradas para minhas feições, que não eram nada harmônicas. Minha mãe, numa noite muito escura, confidenciou ao meu pai que pretendia me dar de presente a um santo. Para que este tivesse piedade de mim e assim permitisse uma vida tranqüila, com poucos traumas e chacotas. A dúvida era: qual dos santos gostará de receber tal regalo? Meu pai deu de ombros. Era devoto de São Francisco de Assis e achava que o protetor dos animais não aceitaria garoto tão sem graça como eu. Mamãe concordou e naquela mesma noite rezou muito para que o santo certo a orientasse na escolha. Sei que meses se passaram e nenhuma alma manifestou interesse em me proteger. Eu tinha um ano e dois meses. Sequer tinha sido batizado. Minha mãe aguardava ansiosa a resposta e antes desta nada seria feito. Fiquei pagão até hoje. E tenho meus enta anos. Minha mãe tem a cabeça branquinha e passa os dias rezando o terço para que sua pergunta seja respondida. Meu pai morreu tentando evitar o atropelamento de um cachorro. Puxou a direção e o carro capotou. Nem deu tempo de socorrê-lo. Ele não usava cinto de segurança.
Cresci traumatizado com a minha feiúra, com a falta de namoradas, os “meu deus, meu credo” das minhas tias quando visitavam nossa casa. Recusei-me a estudar os santos no colégio por causa do silêncio insistente de todos. Se não podiam me ajudar, por que eu deveria conhecê-los? Não tinha sentido. Meu envolvimento, com o incêndio de novembro, aconteceu porque sou bombeiro. Então quando os santos incendeiam, correm os bombeiros para apagá-lo. Sempre apagamos o fogo e salvamos os santos chamuscados. Enfim, realizamos nosso trabalho de maneira completa e correta. Os bombeiros são corretos. Vestem seus uniformes, sobem no caminhão, manejam as mangueiras de água contra o fogo e ali ficam até executar seu serviço: encerrar as labaredas. Fica a fumaça e aquele cheiro enjoado de coisa queimada. Não é bom, porém necessário. Terminada nossa atuação voltamos confiantes para nossos lares.
Porém nesta semana estou questionando o salvamento dos santos. Não tenho problemas espirituais, mas não será momento destes santos queimarem e outros virem aos seus lugares e estes responderem, enfim, a minha mãe? Pela primeira vez estou revoltado. São sete santos no altar principal e dois pequenos anjos na bancada do lado direito. Tudo muito branco. As mulheres da cidade limpam diariamente este lugar. Lavam com sabão e escova grossa. Esfregam. Passam pano. Nenhum canto passa desapercebido. Mesmo assim nenhum santo se manifestou nestes anos todos. Entrei na igreja e fiquei olhando-os. Pensando nos últimos acontecimentos. Nas safadezas dos Zhotes. Eles doaram um terreno pedregoso à igreja e toda cidade esqueceu os roubos do Zhote Pai na prefeitura. Numa noite o homem estacionou o caminhão do Batista em frente ao órgão público e fez uns meninos carregarem os estofamentos de couro, as cadeiras forradas de veludo, a prataria que decorava a sala do executivo, fora outras coisas de valor considerável. Os santos fizeram vista grossa. Claro, o terreno tinha o seu valor, mas colocar as duas mãos sobre os olhos era demais. Dai-me a paciência, Nossa Senhora dos Aflitos! Naquela cidade ninguém enfrentava a família, que tinha três filhas virgens. Talvez porque acreditassem num possível casamento proveitoso. Talvez por medo. Não sei. O que eu sei é que não tenho medo e vou contratar três bandidos da região para pegarem e currarem as doces meninas. Por que as indecentes deveriam se manter imaculadas enquanto as outras meninas da cidade se prostituíam para garantir o arroz e feijão na mesa de suas famílias famintas? Não. Elas pagariam pelos erros dos pais, sim. Se ficarem com traumas que paguem psiquiatras. Dinheiro sobrando e roubado eles têm. É tanta coisa por fazer nestes poucos dias. Preciso eleger prioridades. Não sou Deus para resolver todos os problemas.
E ainda tem minha mãe. Coitada! Reza dia e noite, mal come, se ocupa com velas, terços e rezaduras de domingo a domingo. Vivemos na mesma casa, mas confesso que me sinto muito sozinho. Como posso suportar ver tal cena durante anos? Enquanto as mães dos meus colegas os levavam ao parque nos finais de semana, ficava eu acompanhando a ladainha das contas do rosário. Pobre Maria que tantas vezes foi aclamada em horas tão vagas! E quantas vezes o Pai, que é de todos nós, desceu dos céus apavorado para ouvir as suplicassem fim de minha mãe? Deviam pensar eles que era caso de doença, ou de aflição terrível. Porém minha mãe nunca pediu nada além da indicação do santo que harmonizasse minhas feições. Nem mesmo pela morte de meu pai ela orou. Colocou preto. Chorou por uns poucos dias no quarto e depois voltou a rezar pelo sinal do santo.Uma meta de vida. Pobre mãezinha, tão obcecada, tão louca. E eu, seu filho. Nós dois esperando por um amanhã sem certezas.
Voltando aos santos mudos tenho duas alternativas: coloco atestado médico no dia do incêndio ou apago o fogo como nos outros anos. Preciso decidir o quanto antes, pois faltam poucos dias. Minha vontade é encerrar tudo no sábado, após a última refeição. Esquecer feiúra, mãe, santos, Zhotes e o diabo que nos carrega diariamente. Mas não posso. O conflito se instaurou na minha cabeça e agora preciso resolver isto, senão as noites serão sem sono tranqüilo, sem estômago para comer, sem paciência para suportar o dia-a-dia. Por que conflitos não se resolvem por si? De uma maneira automática? Receba o comando de resolver-se e pronto. Precisamos de soluções mais simples, como escolher a cor da camiseta que vestiremos no início do dia. Coisas que se pode colocar na mão, que se pode tocar. Como o barro, que moldamos com os dedos curiosos. Insatisfeitos mudamos tudo, desmanchamos e refazemos na argila. Nem iluminação posso pedir aos santos, que estes nunca se interessaram pelo meu caso.
Faltam cinco dias para novembro. São cinco dias inteiros para pensar no que farei ou deixarei de fazer. Não pedirei conselhos. Não ouvirei resmungos. Apenas pensarei nestes cinco dias e no quinto agirei. Assim agem pessoas de bom senso e não ansiosas.
Os dias passam rápido. Manhã, tarde, noite. O sol levanta e adormece. A noite também nãotrégua. O tempo é pura ansiedade. O quinto dia desperta. Espreguicei-me e calcei os chinelos. Abri a janela do quarto e vi que a cidade ainda dormia. Coloquei o casaco por cima do pijama, cabelo desgrenhado e caminhei até a igreja. No bolso interno, uma caixa de fósforos, colocada na véspera. Acendi o primeiro fósforo, olhei para a chama e aproximei-a da cortina de tecido fininho que envolve o altar principal. Segundo fósforo. Terceiro fósforo... dez no total. Tudo feito. tempo ao fogo. Apenas espere. Você agiu.
Fiz o sinal da cruz e fiquei próximo à porta da igreja. Os bombeiros dormiam. Acontecia o incêndio de novembro um pouco antes da hora. Nada doeu. Nem um músculo contorcido. Apenas um fascínio pela luz vibrante. Eis a luz da purificação. Eis a luz que tudo limpa. Se os santos não quisessem me ajudar ao menos eu estaria purificado deste momento em diante. Uma nova fase em minha vida. Eu podia me sentir até bonito. Lindo não, mas bonito. Além disto, quantas pessoas não estariam desejando o incêndio de novembro. De repente, para mais alguns, estas chamas seriam também salvação. Enquanto o altar ardia encostei os joelhos no chão. Sorrindo rezei ao senhor do Fogo. Então era este meu santo? As rezas saíram naturalmente para ele. O responsável por provocar incêndios, por queimar a matéria mais resistente. Eu era seu protegido desde meu nascimento, mas agora percebia. Perdoe-me senhor, por tamanho descaso nestes anos todos. Agora estou aqui de joelhos e entregue ao seu chamado. Faça de mim seu enviado. sinto a sua força. Guie-me por este mundão. Eu irei conduzir sua chama onde se fizer necessária. Uma mão interrompeu minha oração e puxou-me pelo braço ou pelo ombro. Fui arrastado para a rua sem saber como ou por quem. Na rua, tossindo muito, reconheci o rosto de um colega bombeiro. O fogo começou antes do previsto e você quase foi junto. Ele estava sozinho, de pijama, sem o caminhão, sem as mangueiras de água. A cidade, apesar das chamas altas, que consumiam a igreja, ainda dormia. Não sei como acordei. Tenho o sono pesado. Acho que desta vez nada poderemos fazer. A conformidade de meu colega me fez levantar e olhar o fogo por outro ponto de vista. Eu tinha vencido. Ninguém faria nada para apagar o fogo. Pessoa alguma iria se intrometer nos destinos dos santos de outubro. O senhor do Fogo estava certo. Havia ele conduzido minha mão com maestria. Minha mãe estava livre daquela obsessão. Sua meta fora atingida. Quem sabe agora os Zhotes seriam punidos? Um no caminho estava se criando. A vida teria graça a partir de então. Eu poderia ter uma namorada. Não seria mais chacota das velhas da cidade. Saberia para quem direcionar minhas orações. Eu não estava mais sozinho. O outro bombeiro baixou a cabeça e disse que voltaria para casa. Nada poderemos fazer desta vez. O incêndio de novembro foi traiçoeiro. Daqui a pouco a cidade vai acordar e teremos que dar alguma explicação. Vamos nos vestir e nos preparar. Ele saiu muito cabisbaixo. Mal percebeu minha alegria. Meus olhos brilhavam e dançavam no ritmo das chamas. Também queria me vestir. Estava ansioso para enfrentar a cidade, ouvir os comentários, as suposições. Ficaria quieto e orgulhoso. Estava tudo terminado.

Voltei para casa sujo, mas confiante num futuro melhor. Entrei no quarto troquei de roupa. Lavei o rosto, arrumei os cabelos. Minha mãe deve estar fazendo o café. Estou com fome. Este fogo todo abriu meu apetite. Mãe, vamos tomar café. O dia será longo. Mãe, mãe. Ao abrir a porta do seu quarto senti um cheiro de queimado. Ela estava no chão. Queimada. Morta. Com as mãos unidas no terço. Com a pele retorcida. Grudadas no teto do quarto, trechos de suas orações rotineiras. Todas chamuscadas.

domingo, 29 de junho de 2014

Forasteiros



Por Patrícia Soares Viale

Dizem uns que forasteiro é todo aquele que é de fora, um estrangeiro. Diz o dicionário que o forasteiro é aquele que também peregrina. E peregrinar é viajar ou andar por terras distantes. Já fui uma peregrina em Alpes Suíços. A primeira impressão é de total estranhamento: a língua, a comida, os hábitos, as relações. Quando o idioma é muito estranho poucas opções de trabalho se tem. É preciso estudar. Para entender o quê os outros dizem, para aprender a se comunicar, para então bem trabalhar. Adaptação é transformar um estranhamento em uma quase rotina. É transformar aquele caminho esquisito, e muitos vezes doloroso, em algo já percorrido e conhecido. E quando se chega ao meio deste destino se olha para o lado. E o que descobrimos? Que não somos mais forasteiros, que também não somos nativos daquele lar. Mas somos cidadãos do Mundo. Somos aquele sujeito que põe os interesses da Humanidade acima dos da própria Pátria. Um crescimento. Uma mudança de ideais muito bem-vinda.



São Chico recebe forasteiros diariamente. Sua paisagem, sua tranqüilidade os atraem. Podemos dizer que fascina. E fascinados queremos conhecer mais. Queremos ler o livro escrito por aquela escritora do lugar. Desejamos caminhar no Lago e sentir sua energia. Cobiçamos a paz que seus moradores sentem e expressam. Ambicionamos um outro sentimento. Procuramos o entrosamento. E este vem em forma de um total entendimento entre nossas antigas experiências e o novo lugar que vivemos. Passa-se a trocar experiências, a contar o que já se viveu, o que já se fez. Passa-se a ouvir os outros. Para sintonizar idéias tão distintas. Forasteiros sozinhos nada constroem. Nativos sozinhos nada vivem de novo. Juntos podem mudar. Mudar uma realidade. Transformar o presente. Organizar um outro futuro. Ou ainda então plantar mais uma semente: a da esperança renovada. E é melhor uma longa avenida com jardins floridos e cultivados por tantos, do que um duelo. Daqueles de antigamente. Com o estranho numa ponta. E na outra o conhecido. Um dos dois sempre morria.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Pinhão fruto nobre

Em 2008 fiz uma matéria para a Revista Terra da Gente sobre a extração do pinhão. Maria Rita na barriga e os textos se fazendo nos caderninhos!






Metamorfose





por Patrícia Soares Viale

O dia estava tão lindo que deu vontade de enfiá-lo inteirinho na boca. Nem precisava mastigar, apenas ficar com ele guardado entre os dentes. E assim aproveitar cada sabor desse azul céu. Meu avô voltou da horta, onde cuidava dos pés de milho, que já estavam maiores que eu. Nas tardes úmidas eu ficava escondida por lá esperando a chuva, sem ninguém saber de mim. Algumas vezes levei a enxada caso um bicho malvado pensasse me pegar e me machucar.

Antes de ontem meu avô disse bem assim larga dessa enxada guria arteira, mas eu fiquei braba, coloquei as mãos na cintura e falei em tom de gente grande tu sempre quer ajuda e eu tô ajudando tu. Dando risada de balançar a cabeça ele me disse que essa ajuda é de neto. Nunca me fiz de rogada, desde aquela época, e virei o tal neto. Não mais vesti saia de florzinha. Passei dias de calção vermelho, bonito até. E fazia cara de ruim porque os guris têm cara de gente ruim, principalmente quando crescem. Tá bom netinha, vamos brincar de neto e vovô. Só minha avó não gostava daquela arte. Me puxava os cabelos e dizia isso é muito feio e papai do céu não gosta. Como ele nunca veio me contar o que achava, continuei. Uma vez eles foram à cidade num dia de chuva. Tu não vais, podes pegar um resfriado, uma gripe. E por isso fiquei com uma moça magrinha, que gostava de assistir televisão e cortar o cabelo dos outros. Por que tu corta cabelo alheio? Ah, pra deixá a gente toda bonita e pra ganhá um troquinho. E quem não pode pagar? Mas é tão baratinho. E se eu contar que tenho piolho, que não quero incomodá minha vó, tu corta meu cabelo assim? Assustada e com nojo dos bichinhos fiquei de cabelo curto, curtinho. Tua avó me será grata. Mas a boa velhinha que cuidava do cabelo da Chapeuzinho todos os dias sem falhar, nem mesmo nos domingos, não acreditou nos piolhos. Fiquei sem arroz de leite naquela semana. Tudo bem. Eu já era um guri e guri não sente falta de doce nem reclama quando ganha castigo.Meu avô estava contente com o quê para ele era uma brincadeira de verão. Minha avó já não fazia mais sobremesas. Mas nem fraquinha eu fiquei e continuei trabalhando. Café da manhã e almoço das galinhas era eu quem dava. Milhinho, milhinho. E elas vinham numa corrida desajeitada e esfomeada. Tinha um galo meio criança meio adulto, preto que nem carvão, que eu não gostava. Ele batia nas galinhas, nos galos menores e em mim. Um momento de distração bastava e pronto, mais um roxo na perna. Hematoma. Uma vez saiu sangue. Bico e unha fincando. Ao ataque, sem dó e piedade. Fiz um trato com o brigão, se me atacar fica sem milho. Achei que ele tremeria, ficaria com medo, só que adiantou coisa alguma. Nossas brigas continuaram, continuaram. Não contei pra pessoa alguma e montei um plano. Quando ele vier me atacá eu despejo o milho no chão e taco o balde na cabeça dele de uma vez. Prendo ele, sufoco ele e grito. Grito alto, tão alto, que tudo fica surdo. E ele com medo embora vai, quietinho, envergonhado, sem nunca mais me incomodar. O galo saltou em mim e as unhas atingiram minha pele. Como doe. Doe e arde. Escorre sangue na perna. Mais um baita machucado. Minha avó disse a brincadeira terminou. Dali em diante faria Maria-chiquinha nos meus cabelos, me colocaria vestido de florzinha e me daria uma boneca de longas melenas. Daquelas de bochechas cor de rosa. A avó voltou a fazer arroz doce e o avô trabalhava sozinho. Meus cabelos cresciam devagarinho. Os milhos foram colhidos e o galo virou comida no domingo em que meus pais vieram me buscar.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Associação Chico Viale: o milagre da multiplicação


Um email. Assim começou a Associação Chico Viale. Um email, em 15 de janeiro de 2007, levou cerca de 300 doadores de sangue ao Hemocentro do Rio Grande do Sul (Hemorgs), em Porto Alegre. Todos doavam em nome de Francisco Viale. Nos raros intervalos do cadastro de doadores, a funcionária do setor perguntou para a colega: “Será que o Francisco Viale é celebridade?” Na época, janeiro de 2007, o Chico Viale trabalhava com turismo em Gramado e não se considerava celebridade, mas uma pessoa dedicada ao trabalho e seus princípios. Mal sabia que sua vida tomaria um rumo tão singular e solidário. Que se tornaria símbolo de um trabalho social. Nos sessenta e poucos dias em que ficou em coma, depois de um acidente de carro, Chico Viale foi motivação para que quase 500 pessoas doassem sangue, na sede do Hemorgs (em Porto Alegre) e na coleta promovida em Gramado, no Hotel Serrano, na época local de trabalho do Chico.
Nestes dois meses, além da angústia do estado clínico do Chico, a família e amigos se depararam com a problemática da doação de sangue.  Várias vezes, enquanto esperavam o horário para visitar o Chico, no HPS de Canoas, foram testemunhas do desespero de pessoas, que eram comunicadas  da necessidade de reposição de bolsas de sangue, utilizadas por familiares internados ali. Como conseguir 6, 15, 20 doadores de sangue? Como pedir a eles para reporem bolsas de sangue para uma outra pessoa?



Em fevereiro de 2007, durante a coleta de sangue, em Gramado, aconteceu a primeira conversa com a assistente social e coordenadora da captação de doadores de sangue do Hemorgs, Maria de Lourdes Peck. Ela falou sobre as exigências para se doar sangue, como estar em boas condições de saúde, não ter doenças infecto contagiosas, medicamentos que permitem a doação e outros que a inviabilizam. Contou sobre a falta de informação, como motivar os doadores a irem regularmente aos hemocentros, sem que se precise de uma tragédia para  sensibilizá-los.



O Chico morreu em março de 2007 deixando muita tristeza entre os que o conheceram, mas espalhando um rastro de vida entre os que receberam as bolsas de sangue doadas em seu nome.  Naquele mesmo ano, em pleno aniversário da Revolução Francesa, 14 de julho, foi criada a Associação Chico Viale, com o único objetivo de estimular a doação de sangue.

O Chico Viale

Nestes quase seis anos de trabalhos, muitas dificuldades foram superadas: coletas realizadas em dias muito frios (geralmente a pressão sobe em dias frios e inviabiliza a doação); falta de recursos financeiros. Neste tempo muito se investiu em informação. Doação de sangue e cadastro de doador de medula óssea entraram na pauta da imprensa.  Palestras foram realizadas.  Um site informativo (www.chicoviale.org.br) foi criado. E muita, muita conversa aconteceu. Doação de sangue virou assunto de porta de escola, de idas ao supermercado. Conversa de todo dia.



Atualmente, um grupo se concentra com ações em Porto Alegre. Cerca de vinte mulheres prestam trabalho solidário no Hospital Presidente Vargas, promovem palestras e captam doadores de sangue. Uma outra frente trabalha entre São Francisco de Paula, Canela e Gramado organizando doações de sangue, disponibilizando informação e parceria em ações da causa. Via internet, um site, um blog, uma página e um grupo do Facebook contam como ajudar, onde e por que. “As pessoas estão mais solidárias, querem ajudar. Estão buscando um comprometimento com o ‘outro’”, afirma Eloisa Soares, presidente da Associação Chico Viale.



Atuar em frentes diversas tem possibilitado vida longa à entidade, que acredita na formação do doador de sangue. Inúmeras vezes, Maria de Lourdes Peck frisou a importância de um trabalho educacional, para que as pessoas percebam que doar sangue é mais que importante, é vital para outras pessoas, como pacientes de leucemia ou para quem tenha passado por uma cirurgia ou algum tipo de acidente.

Para o futuro próximo, a entidade quer implantar na região o projeto Escola do Sangue. Uma escola que trabalhará informação, cidadania e solidariedade, além de desenvolver trabalhos com profissionais das áreas de moda e comunicação. “Doar sangue é uma causa que tem glamour, que tem apelo social e estético. As associações com o tema são infinitas e trabalhar com elas é aumentar o público atingido. Sangue não é momento de tragédia, é vida”, completa Eloisa Soares.

No dia 15 de julho, em São Francisco de Paula, acontecerá nova doação de sangue na sede da entidade.