domingo, 29 de junho de 2014

Forasteiros



Por Patrícia Soares Viale

Dizem uns que forasteiro é todo aquele que é de fora, um estrangeiro. Diz o dicionário que o forasteiro é aquele que também peregrina. E peregrinar é viajar ou andar por terras distantes. Já fui uma peregrina em Alpes Suíços. A primeira impressão é de total estranhamento: a língua, a comida, os hábitos, as relações. Quando o idioma é muito estranho poucas opções de trabalho se tem. É preciso estudar. Para entender o quê os outros dizem, para aprender a se comunicar, para então bem trabalhar. Adaptação é transformar um estranhamento em uma quase rotina. É transformar aquele caminho esquisito, e muitos vezes doloroso, em algo já percorrido e conhecido. E quando se chega ao meio deste destino se olha para o lado. E o que descobrimos? Que não somos mais forasteiros, que também não somos nativos daquele lar. Mas somos cidadãos do Mundo. Somos aquele sujeito que põe os interesses da Humanidade acima dos da própria Pátria. Um crescimento. Uma mudança de ideais muito bem-vinda.



São Chico recebe forasteiros diariamente. Sua paisagem, sua tranqüilidade os atraem. Podemos dizer que fascina. E fascinados queremos conhecer mais. Queremos ler o livro escrito por aquela escritora do lugar. Desejamos caminhar no Lago e sentir sua energia. Cobiçamos a paz que seus moradores sentem e expressam. Ambicionamos um outro sentimento. Procuramos o entrosamento. E este vem em forma de um total entendimento entre nossas antigas experiências e o novo lugar que vivemos. Passa-se a trocar experiências, a contar o que já se viveu, o que já se fez. Passa-se a ouvir os outros. Para sintonizar idéias tão distintas. Forasteiros sozinhos nada constroem. Nativos sozinhos nada vivem de novo. Juntos podem mudar. Mudar uma realidade. Transformar o presente. Organizar um outro futuro. Ou ainda então plantar mais uma semente: a da esperança renovada. E é melhor uma longa avenida com jardins floridos e cultivados por tantos, do que um duelo. Daqueles de antigamente. Com o estranho numa ponta. E na outra o conhecido. Um dos dois sempre morria.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Pinhão fruto nobre

Em 2008 fiz uma matéria para a Revista Terra da Gente sobre a extração do pinhão. Maria Rita na barriga e os textos se fazendo nos caderninhos!






Metamorfose





por Patrícia Soares Viale

O dia estava tão lindo que deu vontade de enfiá-lo inteirinho na boca. Nem precisava mastigar, apenas ficar com ele guardado entre os dentes. E assim aproveitar cada sabor desse azul céu. Meu avô voltou da horta, onde cuidava dos pés de milho, que já estavam maiores que eu. Nas tardes úmidas eu ficava escondida por lá esperando a chuva, sem ninguém saber de mim. Algumas vezes levei a enxada caso um bicho malvado pensasse me pegar e me machucar.

Antes de ontem meu avô disse bem assim larga dessa enxada guria arteira, mas eu fiquei braba, coloquei as mãos na cintura e falei em tom de gente grande tu sempre quer ajuda e eu tô ajudando tu. Dando risada de balançar a cabeça ele me disse que essa ajuda é de neto. Nunca me fiz de rogada, desde aquela época, e virei o tal neto. Não mais vesti saia de florzinha. Passei dias de calção vermelho, bonito até. E fazia cara de ruim porque os guris têm cara de gente ruim, principalmente quando crescem. Tá bom netinha, vamos brincar de neto e vovô. Só minha avó não gostava daquela arte. Me puxava os cabelos e dizia isso é muito feio e papai do céu não gosta. Como ele nunca veio me contar o que achava, continuei. Uma vez eles foram à cidade num dia de chuva. Tu não vais, podes pegar um resfriado, uma gripe. E por isso fiquei com uma moça magrinha, que gostava de assistir televisão e cortar o cabelo dos outros. Por que tu corta cabelo alheio? Ah, pra deixá a gente toda bonita e pra ganhá um troquinho. E quem não pode pagar? Mas é tão baratinho. E se eu contar que tenho piolho, que não quero incomodá minha vó, tu corta meu cabelo assim? Assustada e com nojo dos bichinhos fiquei de cabelo curto, curtinho. Tua avó me será grata. Mas a boa velhinha que cuidava do cabelo da Chapeuzinho todos os dias sem falhar, nem mesmo nos domingos, não acreditou nos piolhos. Fiquei sem arroz de leite naquela semana. Tudo bem. Eu já era um guri e guri não sente falta de doce nem reclama quando ganha castigo.Meu avô estava contente com o quê para ele era uma brincadeira de verão. Minha avó já não fazia mais sobremesas. Mas nem fraquinha eu fiquei e continuei trabalhando. Café da manhã e almoço das galinhas era eu quem dava. Milhinho, milhinho. E elas vinham numa corrida desajeitada e esfomeada. Tinha um galo meio criança meio adulto, preto que nem carvão, que eu não gostava. Ele batia nas galinhas, nos galos menores e em mim. Um momento de distração bastava e pronto, mais um roxo na perna. Hematoma. Uma vez saiu sangue. Bico e unha fincando. Ao ataque, sem dó e piedade. Fiz um trato com o brigão, se me atacar fica sem milho. Achei que ele tremeria, ficaria com medo, só que adiantou coisa alguma. Nossas brigas continuaram, continuaram. Não contei pra pessoa alguma e montei um plano. Quando ele vier me atacá eu despejo o milho no chão e taco o balde na cabeça dele de uma vez. Prendo ele, sufoco ele e grito. Grito alto, tão alto, que tudo fica surdo. E ele com medo embora vai, quietinho, envergonhado, sem nunca mais me incomodar. O galo saltou em mim e as unhas atingiram minha pele. Como doe. Doe e arde. Escorre sangue na perna. Mais um baita machucado. Minha avó disse a brincadeira terminou. Dali em diante faria Maria-chiquinha nos meus cabelos, me colocaria vestido de florzinha e me daria uma boneca de longas melenas. Daquelas de bochechas cor de rosa. A avó voltou a fazer arroz doce e o avô trabalhava sozinho. Meus cabelos cresciam devagarinho. Os milhos foram colhidos e o galo virou comida no domingo em que meus pais vieram me buscar.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Associação Chico Viale: o milagre da multiplicação


Um email. Assim começou a Associação Chico Viale. Um email, em 15 de janeiro de 2007, levou cerca de 300 doadores de sangue ao Hemocentro do Rio Grande do Sul (Hemorgs), em Porto Alegre. Todos doavam em nome de Francisco Viale. Nos raros intervalos do cadastro de doadores, a funcionária do setor perguntou para a colega: “Será que o Francisco Viale é celebridade?” Na época, janeiro de 2007, o Chico Viale trabalhava com turismo em Gramado e não se considerava celebridade, mas uma pessoa dedicada ao trabalho e seus princípios. Mal sabia que sua vida tomaria um rumo tão singular e solidário. Que se tornaria símbolo de um trabalho social. Nos sessenta e poucos dias em que ficou em coma, depois de um acidente de carro, Chico Viale foi motivação para que quase 500 pessoas doassem sangue, na sede do Hemorgs (em Porto Alegre) e na coleta promovida em Gramado, no Hotel Serrano, na época local de trabalho do Chico.
Nestes dois meses, além da angústia do estado clínico do Chico, a família e amigos se depararam com a problemática da doação de sangue.  Várias vezes, enquanto esperavam o horário para visitar o Chico, no HPS de Canoas, foram testemunhas do desespero de pessoas, que eram comunicadas  da necessidade de reposição de bolsas de sangue, utilizadas por familiares internados ali. Como conseguir 6, 15, 20 doadores de sangue? Como pedir a eles para reporem bolsas de sangue para uma outra pessoa?



Em fevereiro de 2007, durante a coleta de sangue, em Gramado, aconteceu a primeira conversa com a assistente social e coordenadora da captação de doadores de sangue do Hemorgs, Maria de Lourdes Peck. Ela falou sobre as exigências para se doar sangue, como estar em boas condições de saúde, não ter doenças infecto contagiosas, medicamentos que permitem a doação e outros que a inviabilizam. Contou sobre a falta de informação, como motivar os doadores a irem regularmente aos hemocentros, sem que se precise de uma tragédia para  sensibilizá-los.



O Chico morreu em março de 2007 deixando muita tristeza entre os que o conheceram, mas espalhando um rastro de vida entre os que receberam as bolsas de sangue doadas em seu nome.  Naquele mesmo ano, em pleno aniversário da Revolução Francesa, 14 de julho, foi criada a Associação Chico Viale, com o único objetivo de estimular a doação de sangue.

O Chico Viale

Nestes quase seis anos de trabalhos, muitas dificuldades foram superadas: coletas realizadas em dias muito frios (geralmente a pressão sobe em dias frios e inviabiliza a doação); falta de recursos financeiros. Neste tempo muito se investiu em informação. Doação de sangue e cadastro de doador de medula óssea entraram na pauta da imprensa.  Palestras foram realizadas.  Um site informativo (www.chicoviale.org.br) foi criado. E muita, muita conversa aconteceu. Doação de sangue virou assunto de porta de escola, de idas ao supermercado. Conversa de todo dia.



Atualmente, um grupo se concentra com ações em Porto Alegre. Cerca de vinte mulheres prestam trabalho solidário no Hospital Presidente Vargas, promovem palestras e captam doadores de sangue. Uma outra frente trabalha entre São Francisco de Paula, Canela e Gramado organizando doações de sangue, disponibilizando informação e parceria em ações da causa. Via internet, um site, um blog, uma página e um grupo do Facebook contam como ajudar, onde e por que. “As pessoas estão mais solidárias, querem ajudar. Estão buscando um comprometimento com o ‘outro’”, afirma Eloisa Soares, presidente da Associação Chico Viale.



Atuar em frentes diversas tem possibilitado vida longa à entidade, que acredita na formação do doador de sangue. Inúmeras vezes, Maria de Lourdes Peck frisou a importância de um trabalho educacional, para que as pessoas percebam que doar sangue é mais que importante, é vital para outras pessoas, como pacientes de leucemia ou para quem tenha passado por uma cirurgia ou algum tipo de acidente.

Para o futuro próximo, a entidade quer implantar na região o projeto Escola do Sangue. Uma escola que trabalhará informação, cidadania e solidariedade, além de desenvolver trabalhos com profissionais das áreas de moda e comunicação. “Doar sangue é uma causa que tem glamour, que tem apelo social e estético. As associações com o tema são infinitas e trabalhar com elas é aumentar o público atingido. Sangue não é momento de tragédia, é vida”, completa Eloisa Soares.

No dia 15 de julho, em São Francisco de Paula, acontecerá nova doação de sangue na sede da entidade.