terça-feira, 24 de fevereiro de 2015



Corre à boca pequena que não sou Jesus
e não sou de fato.
Apenas anunciei algumas verdades
aquelas escondidas nos meus cantos.
Voa borboleta! Voa, voa!
Levanta as asinhas
e as linhas viraram asas de penas
sem mimis, sem beicinho e chororó.
Asas de cores, marcas e top, top.

Para onde voaram as borboletas?
Atravessaram nuvens, estacionaram nas flores.
Toc, toc.
Já não suspiro. Somente respiro.
Fecho a porta e puxo a cortina.
O sol se foi
e eu nanei.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Primavera, ainda que tardia.


Não sou fato. Sou um resguardo de uma vida qualquer. Talvez poeta. Talvez terrorista. Só sou amor. Em busca de uma flor.







Vestida de azul

A menina vestiu azul e entrou na casa. Era um lugar simples com algumas figuras fixadas na parede, um ralo tapete no chão escuro e um ponto de luz central. Acendeu a lâmpada, que de tão fraca, sequer chegava aos cantos. Os olhos da moça procuravam algo, mas a escuridão impedia visibilidade alguma.

lago São Bernardo - foto de Sílvio Kronbauer

Ela decidiu se sentar no centro da peça e esperar. Suas pernas abaixadas e logo os joelhos tocaram o chão. Sentiu um leve roçar na pele e passou a mão. Era terra. Era pó. Era tudo o que guardava a casa. Agora guardado na sua pele. Não totalmente armazenado, mas encontrado. Quando pele e pó se encontram nada mais precisa ser esperado. Já se fez o casamento. Sua mãe sempre falava isto abaixando a mão ao chão e pegando um monte de terra, que passava pelos dedos em forma de acolhida. A pele virava pó. E o pó podia virar pele, mãe? Ela dizia rindo que não. Que eu esperava milagres da vida. Talvez eu não esperasse nada. Apenas queria saber se algumas coisas faziam sentido ou se eram resultado da minha imaginação.


A pequena mulher em sua espera silenciosa e solitária não era imaginação. Era constatação. Dos segundos de um relógio distante. Testemunhavam a cena, a lâmpada anêmica, o grito travado, a memória esquecida de sua existência. Testemunhas que andavam de cabeça baixa numa fila reta carregando um ramo qualquer de folhas. Folhas verdes de pouca importância. A mulher ainda não crescida insistia os olhos abertos em pequenas pausas. Um, dois. Um, dois. E os olhos ardiam. Na sua frente uma poça de lágrimas clareava um pouco mais o local. A quase ser feminino enxugava o pranto com as costas da mão esquerda. Soluçava. Olhos fechados não criam lágrimas, aconselhava a mãe. E por que, agora, te ausentas, minha mãe? As figuras na parede desbotavam a cada segundo passado. Nada mais servia para focar o interesse. Devagar, devagarinho, em gestos tão lentos, a pequena garotinha se refugiou no falso calor do chão e lá ficou. Foi diminuindo, se apequenando tanto que virou gota. Mãe, e coisa líquida com pó dá no quê? Dá em vida, minha filha.