quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A Debulha

por Patrícia Viale

Ela estava sentada na espreguiçadeira próxima a um pinheiro. Daqueles de galhos feitos de grinfas. Aproveitava o sol de inverno um tanto rarefeito, mas intenso. Fechava os olhos e parecia cochilar, somente os pés movimentavam-se devagar, um sobre o outro, como se estivessem travando conhecimento. Olá, como vai? Estou bem e você? Abria os olhos e examinava o cenário a sua frente. Céu azul safira, nenhuma nuvem alta ou baixa e visão ausente mais uma vez. Dormia ou somente fingia dormir.



Se ele telefonar ainda hoje juro que esqueço tudo e voltamos a ficar bem mas precisa ser iniciativa dele senão nem pensar ora como pode isso querer tudo do jeito dele na hora que ele quer estou cansada de tudo esse sol mesmo para me fazer sorrir e acreditar que os acontecimentos podem melhorar como que as coisas podem melhorar se ele não cede se ele não quer entender as minhas escolhas como alguém pode me explicar claro que não minha psiquiatra me disse isso tantas vezes burra sou eu que não quero me conscientizar dessa porcaria toda por que alguns nascem com mais facilidade para a vida e outros como eu se arrebentam na verdade talvez eu sofra de algum complexo e o mundo a todo momento quisesse me ver pelas costas não eu exijo que parem esses pensamentos assim preciso animar o olhar e encarar a flora fauna de frente tirar forças desse astro que brilha e levantar desta cadeira pular carregar a vida nos braços embalar meus sonhos e acreditar cada vez mais que eu posso ainda serei feliz com ele se ele não falar o que me custa ligar eu posso fazer isso posso sacudir esse relacionamento por que ficar esperando que ele o primeiro passo balance as sobrancelhas apoie-se em suas próprias pernas pegue o telefone diga que ama ele que também quer ficar junto e que tudo irá se ajeitar vamos erga-se e faça algo agora e urgente.

Ela abandona a cadeira e caminha rapidamente para dentro de casa. Um passo mais apressado que o outro. Esboçava um sorriso. A espreguiçadeira vazia experimentou esquentar-se com o restinho de sol. Um barulho, não muito fraco, mas até bem forte para alguns ouvidos, poderia ter impressionado-a, mas ela não ouviu. Estava ao telefone. No pinheiro araucária, protegido por lei, uma pinha debulhou e pinhões caíram na grama queimada pelo frio dos dias anteriores.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Chuva

por Patrícia Viale

chuva de pipoca (imagem da internet)

Mais uma vez o barulho. A telha do canto esquerdo está solta. O vento sopra ainda mais forte que à tarde. Moro em minha vigésima casa e tenho menos de quarenta anos. Não sou filha de diplomata. Foi apenas escolha. Daquelas de impulso. E que depois ficam.
foto de Rafael França
Entre tantas moradas, um apartamento me comove até hoje. Ainda faz lágrima correr a . Pinga uma. Então pinga outra. Os acordes tão espaçados quanto passos solitários entre dois quartos de móveis novos, um banheiro com cara de banheiro de hotel, a sala de jantar sem louça combinada e a de estar com um sofá, duas poltronas e outras duas cadeiras de balançar toda gente. Também a varanda vazia de vida, nenhuma plantinha; a cozinha de pouca comida e o corredor sempre cheio de algo qualquer. Não o relembro somente com tristeza. Teve também mágica. Varinha de condão encostada na cabeça e estrelinhas faiscavam. Tal como a primeira abertura da caixinha de música de menina. Nos ossos consigo sentir as artérias, que não esquentavam e assim, não acordadas, pouco revelam mistérios. Talvez de olhos semi-cerrados seja mais fácil. Até mesmo para chover. Água vinda de cima pouco havia naquela terra. Quase nada. Tão seco que fazia nariz sangrar sem perceber. Era noite sem vento. Noite sem zumbido. Tum, tum, tum, tum. Apenas um coração em quietude. Nuvens sérias mostravam a cara e os pingos. De um a um. Juntando-se em roda e caindo em uma fila irregular. Sem pressa. Um, dois, três. Um, dois, três. Gostoso como gato aninhado na almofada. Tão leve e tão ali. Nada intenso na mágica. Apenas chuva.